Carlinhos Bezerra é condenado a 36 anos por matar ex-companheira e o namorado dela em Cuiabá

Jurados rejeitaram pedido da defesa para afastar qualificadoras e reconheceram o feminicídio de Thays Machado e o homicídio qualificado de Willian Moreno.

Carlinhos Bezerra é condenado a 36 anos por matar ex-companheira e o namorado dela em Cuiabá
Foto: Rodrigo Moura/Montagem

Leticia Avalos e João Aguiar | RDNews

O empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos Bezerra, foi condenado pelo Tribunal do Júri de Cuiabá, nesta sexta-feira (31), a 36 anos de prisão em regime fechado, após cerca de 13 horas de julgamento. Ele foi sentenciado pela morte da ex-namorada, Thays Machado, e do então namorado dela, Willian César Moreno, assassinados em 18 de janeiro de 2023. A juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, proferiu a sentença e negou a Carlinhos o direito de recorrer em liberdade.

O Conselho de Sentença reconheceu quatro qualificadoras no feminicídio de Thays —  motivo torpe, emprego de meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio praticado em contexto de violência doméstica e de gênero. — e três no homicídio de Willian: motivo torpe, emprego de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. A defesa tentou afastar as qualificadoras de perigo comum, motivo torpe e feminicídio, mas os pedidos foram rejeitados pelos jurados.

O julgamento durou cerca de 12 horas e contou com os depoimentos de várias testemunhas: o delegado Marcel Gomes de Oliveira, responsável pelo inquérito; a investigadora Lívia Cristina Silva Sales, que analisou os celulares dos envolvidos; o delegado Philipe Pinho, que efetuou a prisão do réu em Campo Verde; e a investigadora Luciene Wolf, que atendeu Thays horas antes do crime. O próprio Carlinhos Bezerra também foi interrogado.

O promotor de Justiça Vinícius Gahyva, responsável pela acusação, classificou o réu como possessivo e ciumento, afirmando que ele via Thays como um objeto, e não como companheira. Segundo a promotoria, motivado por esse sentimento de posse, Carlinhos julgou-se no direito de recorrer à violência para “tomar de volta” o que acreditava ser sua propriedade.

Em seu depoimento, a investigadora Lívia Sales afirmou que o réu realizou cerca de 914 chamadas telefônicas para Thays entre os dias 31 de dezembro de 2022 e 18 de janeiro de 2023, data do assassinato. Segundo ela, nos aparelhos telefônicos apreendidos foram constatadas diversas conversas entre o réu e a vítima, mesmo com ela reafirmando o término do relacionamento.

Outra descoberta feita em um dos celulares foi o contato que Carlinhos manteve com uma cigana. De acordo com Lívia Sales, o réu contratou a mulher, pelo valor de R$ 550, para tentar reatar o relacionamento com Thays. Segundo a investigadora, ficou constatado que todas as investidas de Bezerra receberam resposta negativa da vítima.

Carlinhos perseguia a ex-namorada desde o início do relacionamento e monitorava sistematicamente a localização dela, sabendo onde a vítima estava e o que fazia. Conforme Marcel Gomes de Oliveira, a perícia realizada no computador do réu, apreendido em seu escritório, encontrou mais de 40 pontos de geolocalização de Thays, além de impressões dessas localizações, comprovando que Bezerra tinha conhecimento de toda a rotina da vítima.

De acordo com o delegado, no réveillon de 2023, dias antes do crime, Thays percebeu que estava sendo perseguida por Carlinhos e chegou a confrontá-lo. O empresário respondeu com agressividade, voltou a questionar onde e com quem ela estava e ainda a xingou.

Com base nas provas reunidas durante o inquérito, Marcel sustentou que a dinâmica apontava para um crime premeditado. O delegado também levou em consideração o fato de Carlinhos saber que Thays havia ido ao aeroporto e, posteriormente, à casa da mãe.

Marcel destacou que o relacionamento entre Thays e Carlinhos já era conturbado e não melhorou após o término. Segundo ele, a vítima chegou a sugerir que os dois permanecessem apenas como amigos e pediu insistentemente para que o empresário deixasse de persegui-la, mas sem sucesso. Thays bloqueou o número de Carlinhos, que comprou diversos outros chips para continuar entrando em contato com ela.

Entre as provas do inquérito apresentadas pelo Ministério Público consta uma conversa entre Carlinhos e Thays. No diálogo, o réu insiste em descobrir a identidade do novo namorado da ex-companheira, enquanto ela reafirma o fim do relacionamento.

“Diz o nome. Aí saio fora”, escreveu Carlinhos.

“Não tem nome e pode sair, terminamos. Devemos seguir com as nossas vidas. Desejo tudo de bom para você e obrigada por tudo. Deus te abençoe”, respondeu Thays.

O réu

Durante seu depoimento, Bezerra alegou que ele e Thays ainda não haviam encerrado o relacionamento quando a vítima começou a se relacionar com Willian — versão contestada pelas testemunhas. Ele afirmou que, depois de ver o casal junto e segui-los, voltou para casa, mas não conseguiu dormir.

Carlinhos relatou que queria saber quem era, de fato, Willian e que começou a “imaginar coisas” quando decidiu ir atrás de Thays na casa da mãe dela. Disse que, no dia do crime, havia decidido sair para “beber todas”, mas avistou o casal saindo do prédio, abaixou o vidro do carro e perguntou por que Thays não atendia suas ligações.

Ele afirmou ter sido chamado de “corno babaca” por Willian, que também mandou que ele fosse embora. Segundo o réu, nesse momento perdeu o controle em frações de segundo e atirou. Alegou ainda que agiu em legítima defesa porque Willian teria ido “para cima dele”.

O réu declarou que, se não tivesse visto Thays ao lado de Willian, o crime não teria acontecido e que toda a sequência que culminou nas mortes durou apenas dois segundos. Carlinhos também admitiu que foi um ato impensado e um erro que o corrói “todos os dias”.

Bezerra declarou que teve muita dificuldade em aceitar o fim do relacionamento porque é do signo de Câncer. O empresário também afirmou estar arrependido e disse que tomou 150 comprimidos de uma só vez dentro da prisão, na tentativa de tirar a própria vida.

O empresário ainda destacou que buscou fortalecer sua inteligência emocional na época. Segundo ele, passou a acompanhar pregações do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, voltadas aos “cuidados do coração”.

Relembre o crime

A ex-namorada de Carlinhos, Thays Machado, e o namorado dela, Willian César Moreno, foram mortos a tiros na tarde de 18 de janeiro de 2023, no bairro Consil, próximo à Avenida Historiador Rubens de Mendonça (Avenida do CPA), em Cuiabá. Thays estava em frente ao Edifício Residencial Monet, onde sua mãe morava, para entregar uma chave à genitora. Willian a acompanhava.

Conforme publicado, Thays estava em um relacionamento com Willian havia cerca de um mês quando, na madrugada do dia do crime, foi ao aeroporto buscá-lo. Na ocasião, os dois teriam sido abordados por Carlinhos, que os ameaçou com uma arma de fogo.

Ela ligou para o 190 e denunciou a situação. Na ligação, foi orientada a procurar a Delegacia Especializada de Defesa da Mulher e a voltar a acionar a Polícia Militar caso fosse necessário. De acordo com as investigações, Thays não procurou a unidade para formalizar a denúncia nem solicitar medida protetiva.

Horas depois, por volta das 17h, ela e Willian Moreno foram assassinados na calçada do edifício onde a mãe de Thays morava.

Na mesma noite, Carlinhos foi preso em uma chácara da família. Durante interrogatório na Polícia Civil, confessou o crime. Alegou sofrer de diabetes e estar em “estágio de neuropatia”, condição que, segundo ele, provocou um desequilíbrio emocional e teria motivado os assassinatos.