Política

Quais cidades de Mato Grosso Lula ganhou e o que explica os redutos do petista

Presidente venceu em apenas nove dos 142 municípios mato-grossenses no primeiro turno; Campinápolis, no Araguaia, aparece entre os principais redutos de Lula, com 54,45% dos votos válidos.

Quais cidades de Mato Grosso Lula ganhou e o que explica os redutos do petista
Foto: Reprodução

Por: Adailson Pereira

O mapa eleitoral de Mato Grosso ficou ainda mais favorável à direita no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Enquanto Flávio Bolsonaro (PL) venceu amplamente no estado, com cerca de 65% dos votos válidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu terminar na frente em apenas nove dos 142 municípios mato-grossenses.

Entre essas nove cidades está Campinápolis, na região do Araguaia, onde Lula recebeu 4.457 votos, o equivalente a 54,45% dos votos válidos, contra 3.471 votos de Flávio Bolsonaro, que ficou com 42,41%. O resultado coloca o município como um dos principais redutos petistas do estado e chama atenção também pelo perfil demográfico local, marcado pela presença da população indígena Xavante.

Os dados oficiais da Justiça Eleitoral mostram que, em 2022, Lula também havia vencido o primeiro turno em Campinápolis, com 56,51% dos votos válidos, contra 40,10% de Jair Bolsonaro. Ou seja, o município permaneceu no campo eleitoral petista quatro anos depois, embora Lula tenha perdido pouco mais de dois pontos percentuais de participação entre os votos válidos.

A diferença entre 2022 e 2026 é ainda mais significativa quando se observa o conjunto do estado. No primeiro turno de 2022, Lula havia vencido em 24 municípios de Mato Grosso. Em 2026, esse número caiu para nove. Quinze cidades que haviam dado maioria ao petista passaram para o lado de Flávio Bolsonaro.

 

Campinápolis se destaca no Araguaia

A vitória de Lula em Campinápolis ganha uma dimensão particular por causa da composição do eleitorado. O município possui uma das maiores concentrações de população indígena de Mato Grosso, com forte presença do povo Xavante.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), mais de 30% do eleitorado de Campinápolis é indígena. O município reúne cerca de 180 aldeias Xavante distribuídas nas terras indígenas Parabubure e Chão Preto, que juntas ocupam aproximadamente 237 mil hectares. Para as eleições de 2026, a Justiça Eleitoral organizou, com participação de representantes indígenas, 15 ônibus para transportar eleitores das comunidades até os locais de votação.

O Censo Demográfico 2022 do IBGE também passou a permitir uma análise mais detalhada da presença indígena nos municípios brasileiros. A pesquisa identificou a população indígena por município e por localização em terras indígenas, além de informações sobre etnias e características socioeconômicas.

Isso ajuda a compreender por que Campinápolis merece tratamento diferente dentro do mapa eleitoral de Mato Grosso. Não é possível afirmar, apenas com os resultados eleitorais, que a população indígena tenha sido responsável pela vitória de Lula, mas a dimensão desse eleitorado é um fator demográfico relevante para qualquer análise sobre o comportamento político do município.

 

As nove cidades onde Lula venceu

As nove cidades formam uma espécie de “ilha lulista” dentro de um estado que deu ampla maioria a Flávio Bolsonaro. Os resultados do primeiro turno de 2026 foram:

Município

Lula

Flávio Bolsonaro

Nossa Senhora do Livramento

60,58%

34,69%

Barão de Melgaço

57,59%

37,64%

Porto Estrela

55,97%

40,65%

Poconé

55,85%

39,76%

Campinápolis

54,45%

42,41%

Alto Paraguai

53,06%

42,76%

Jangada

50,17%

45,35%

Santo Antônio do Leverger

47,56%

47,17%

Ponte Branca

47,44%

45,82%

Os dados foram totalizados pela Justiça Eleitoral. As disputas mais apertadas ocorreram em Ponte Branca, onde Lula venceu por apenas 24 votos, e em Santo Antônio do Leverger, onde a diferença foi de 52 votos.

Já Nossa Senhora do Livramento apresentou o melhor desempenho proporcional de Lula no estado, com 60,58%. O município é também um caso de continuidade histórica: em 2022, o petista havia obtido 65,78% dos votos válidos, contra 28,87% de Jair Bolsonaro.

 

O que mudou desde 2022?

Apesar de Lula ter mantido a liderança nas nove cidades, os números mostram uma redução generalizada de sua vantagem.

Em Poconé, por exemplo, Lula passou de 63,13% dos votos válidos no primeiro turno de 2022 para 55,85% em 2026. Em Barão de Melgaço, caiu de 61,47% para 57,59%. Em Nossa Senhora do Livramento, a queda foi de 65,78% para 60,58%.

Campinápolis também acompanhou essa tendência: Lula tinha 56,51% em 2022 e ficou com 54,45% em 2026. Ainda assim, manteve uma vantagem de mais de 12 pontos percentuais sobre Flávio Bolsonaro.

Em Ponte Branca, Lula tinha 58,87% no primeiro turno de 2022 e agora ficou com 47,44%, uma redução de mais de 11 pontos percentuais. Mesmo assim, conseguiu permanecer à frente de Flávio.

O movimento revela que a permanência desses municípios no campo eleitoral de Lula não significa que o petista tenha mantido o mesmo nível de apoio de quatro anos atrás. Em vários deles, a vantagem diminuiu consideravelmente.

 

Perfil econômico, população rural e programas sociais

Outro elemento que aparece na análise é o perfil socioeconômico dessas cidades. A maior parte dos nove municípios possui população relativamente pequena, forte presença de áreas rurais e economias ligadas à agropecuária, serviços locais e atividades tradicionais.

Esse perfil pode criar condições diferentes das encontradas nos grandes centros urbanos e nos municípios do agronegócio de larga escala, onde Flávio Bolsonaro teve desempenho muito superior.

O Bolsa Família também é um elemento que precisa ser considerado dentro dessa análise, principalmente em municípios com maior presença de famílias de baixa renda. O programa federal atende milhões de famílias em todo o país e possui condicionalidades ligadas à saúde e à educação.

No entanto, os dados eleitorais não permitem concluir que beneficiários do Bolsa Família tenham votado em Lula ou que o programa, isoladamente, explique a vitória do petista. Para chegar a essa conclusão seria necessário cruzar, em nível municipal e individual, dados de beneficiários com informações eleitorais, algo que não é disponibilizado dessa forma pela Justiça Eleitoral.

Portanto, o Bolsa Família deve ser tratado como parte do contexto socioeconômico e não como uma explicação automática para o resultado das urnas.

 

Pantanal e Baixada Cuiabana concentram parte dos redutos

Há também um componente geográfico. Parte importante das cidades onde Lula venceu está concentrada em áreas próximas à Baixada Cuiabana e ao Pantanal.

Poconé, Nossa Senhora do Livramento, Barão de Melgaço e Porto Estrela, por exemplo, já apresentavam forte votação em Lula em 2022. Poconé e Livramento chegaram a superar 60% para o petista naquele primeiro turno.

Nossa Senhora do Livramento é o caso mais emblemático. Além da continuidade eleitoral do PT, o município possui presença significativa de comunidades quilombolas. Dados do Censo 2022 apontam 945 moradores quilombolas no município, enquanto Poconé contabilizou 3.445 moradores quilombolas.

Essas características não determinam automaticamente o voto, mas ajudam a formar um quadro diferente daquele encontrado em municípios mato-grossenses fortemente ligados ao agronegócio empresarial, onde a votação de Flávio Bolsonaro foi mais expressiva.

 

Uma ilha petista em um estado majoritariamente bolsonarista

O resultado de 2026 reforça a característica conservadora do eleitorado de Mato Grosso. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança estadual, enquanto Lula conseguiu preservar apenas nove municípios.

O dado mais importante, porém, está na comparação histórica, das 24 cidades conquistadas por Lula em 2022, 15 mudaram de lado em 2026. Os nove municípios restantes, entre eles Campinápolis, são os únicos em que o petista conseguiu repetir a vitória municipal no primeiro turno.

No caso do Araguaia, Campinápolis surge como um dos exemplos mais expressivos dessa resistência eleitoral. O município não apenas permaneceu entre os redutos de Lula, como registrou o quinto maior percentual do petista entre os 142 municípios de Mato Grosso.

O resultado mostra que, embora o mapa estadual tenha se tornado ainda mais favorável à direita, existem bolsões eleitorais em Mato Grosso onde fatores históricos, sociais, demográficos e econômicos continuam produzindo um comportamento diferente da média estadual.

E Campinápolis, pela combinação entre presença indígena Xavante, características rurais e manutenção do voto em Lula entre 2022 e 2026, é um dos casos mais relevantes para entender essa divisão do eleitorado mato-grossense.